quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Exemplos de reinserção mostram que a oportunidade pode transformar vidas

A Divisão de Assistência Integrada da Superintendência do Sistema Penitenciário do Estado (Susipe) atua junto a uma rede de parceiros para oferecer aos egressos novas oportunidades de trabalho e de vida por meio da qualificação profissional. Uma grande parcela dos homens e mulheres que deixam o cárcere é encaminhada para o Projeto Fábrica Esperança, onde têm a oportunidade de se capacitar para conquistar vagas no mercado de trabalho.

Os cursos oferecidos a esse público são ministrados pelas empresas do Sistema S (Senar, Senai, Sesi, Senac, Sesc, Sebrae, Sest, Senat e SESCOOP), pelo Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) e também por instituições religiosas. As capacitações abrangem diversas áreas de atuação.

Alguns contratos firmados com a Fábrica Esperança oferecem oportunidades em outras instituições. Atualmente, os que mais se destacam são a Secretaria de Estado de Assistência Social (Seas), que emprega sessenta egressos em seu quadro funcional, e a Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social (Segup), que absorveu 54 egressos do Sistema Penitenciário.

É com a intermediação da Divisão de Assistência que os ex-detentos são cadastrados e têm suas necessidades conhecidas. O objetivo é auxiliar essas pessoas para elas tenham uma alternativa de subsistência após o cumprimento da pena. No Grupo de Trabalho de Assistência ao Egresso e Família (GTAEF) da Divisão, atuam uma gerente, assistentes administrativos, assistente social e um psicólogo.

Foi por meio desse contato com a DAI que Edson da Silva Borges, 52 anos, conseguiu se manter trabalhando mesmo enquanto ainda estava no cárcere. Preso em 2013 por envolvimento com o tráfico de drogas, foi condenado a três anos de reclusão em uma das casas penais do Complexo Penitenciário de Santa Isabel. A ociosidade era o que mais o incomodava, já que desde criança aprendera a trabalhar na oficina mecânica mantida pela família.

Durante uma consulta pela DAI, Edson conheceu o projeto Conquistando a Liberdade e assim pode ocupar seus dias enquanto cumpria pena. “Eu não queria saber de remição de pena, queria saber de trabalhar pra me manter firme lá dentro”, contou. A iniciativa que chamou a atenção de Edson é uma das mais de 30 desenvolvidas pela Susipe.

Desde outubro de 2014 em prisão domiciliar, Edson voltou à velha rotina na oficina de sua família. “Desde que fui beneficiado pelas saídas temporárias sempre vinha pra cá e trabalhava. Não voltei para o mundo das drogas. Ocupei a minha mente de novo e não pretendo cometer outros erros”, diz o egresso. Após a passagem pelo cárcere, Edson diz que hoje tem outra visão do trabalho. “Dou muito mais valor no que eu faço e no quanto eu ganho. Hoje penso muito bem no que isso representa para mim e para minha família. Trabalho de segunda a sábado, das 8h às 18h, e não acho nem um pouco ruim”, revela.

Para aqueles que, diferente de Edson, ainda não descobriram ou não possuem habilidade para determinados ofícios, as opções de trabalho surgem por meio de convênios com instituições e empresas. Atualmente, 21 convênios estão em vigor, assegurando trabalho a 422 pessoas que ainda cumprem pena. A capacitação profissional durante a vida no cárcere é determinante para a vida que os egressos terão fora dele.

Somente em 2014, a DAI registrou uma média mensal de 56 atendimentos por mês. Muitas  histórias vitoriosas resultaram desse trabalho. “Sabemos de um egresso que hoje trabalha como autônomo e mantém sua família com a renda obtida como taxista, num carro de sua propriedade. Nosso trabalho tem obtido resultados fantásticos", ressalta o diretor do Núcleo de Reinserção Social da Susipe, Ivaldo Capeloni.

As atividades desenvolvidas pelo Núcleo trabalham vários aspectos que são fundamentais para a recuperação do detento. Educação, saúde, religião e trabalho são temas explorados com os internos enquanto ainda estão no cumprimento da pena. “É preciso que essa pessoa seja moldada não só na sua personalidade, com a injeção de valores éticos e morais, mas também na preparação profissional, para que ela seja inserida naturalmente no mercado de trabalho”, afirma o diretor do NRS.

Para Capeloni, a atenção e o trabalho desenvolvido junto aos egressos influencia diretamente na redução da criminalidade. “Acompanhamos com muita satisfação a multiplicação das histórias bem sucedidas de mudança de vida dos nossos egressos. E em consequência, a diminuição da reincidência desses indivíduos no crime”, comemora.

Sila: uma trajetória reescrita pela determinação

Trajetória iniciada da mesma maneira, mas que ganhou desfechos bem mais surpreendentes, é narrada no livro Danem-se os normais", que conta a história de um ex-batedor de carteiras que virou empresário de sucesso. A construção de um império pelas mãos de um homem com pouca instrução e um passado que inclui crimes e passagens por alguns dos mais conhecidos presídios do país virou uma das publicações mais lidas no momento, com mais de 100 mil exemplares editados.

A vida de Sila da Silva Conceição, paraense, nascido e criado na periferia de Belém, desperta a curiosidade de muita gente e logo será vista na tela do cinema, transformada em filme. O segredo dessa reviravolta ele resume em uma palvra: confiança. “Ninguém acreditava em mim, mas o importante era que eu acreditava. Carrego isso comigo: Querer é poder”, conta o empresário que hoje consolida seu nome no mercado imobiliário internacional.

Assim como tantos homens e mulheres que decidiram usar a oportunidade como instrumento de mudança, Sila, que também passou pelo Sistema Penal paraense, agarrou a chance que a vida lhe deu e apostou que conseguiria reescrever sua história. Preso pela primeira vez aos 19 anos, em Belém, por "bater carteiras", passou dez anos na criminalidade, atuando sempre na prática de roubos. Da capital paraense seguiu para Brasília (DF) e, depois, para São Paulo, onde foi preso por duas vezes. Na segunda, foi mandado ao presídio do Carandiru. "Foi quando decidi que não queria mais aquilo. Lá dentro descobri que eu tinha uma força bem maior", conta.

Voltou para Belém e começou a vender peixe no mercado do Ver-o-Peso. Foi com essa atividade que conseguiu juntar umas economias e comprar um fusca e virar taxista. “Não tinha nem carteira de motorista, mas decidi que era aquilo que iria fazer dali pra frente”, relebra.

Com a renda obtida nas viagens Sila comprou mais carros, que locava para outros motoristas. E assim deu início a uma trajetória de sucesso. Hoje ele é proprietário de uma frota de mais de 100 veículos em Belém e Manaus, situação que lhe permitiu ampliar seus horizontes. Numa viagem aos Estados Unidos, Sila notou que o mercado imobiliário oferecia grandes possibilidades de investimento. Comprou um imóvel, reformou e alugou. Hoje já são mais de 10 apartamentos sob sua propriedade na Flórida.

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