segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

DILMA DARÁ AVAL A LEVY, QUE APANHA DO PT E DA ESQUERDA

A primeira reunião ministerial do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, marcada para acontecer nesta terça-feira 27, deve ter como mensagem principal do Palácio do Planalto o apoio às medidas de ajuste fiscal anunciadas pela nova equipe econômica do governo. A presidente faz questão de deixar claro que apoia o novo plano da Fazenda, que prevê cortes de gastos e acertos das contas públicas em prol da recuperação do crescimento econômico e da credibilidade do Brasil junto a investidores.
O novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tem sido alvo de críticas de diversos setores da esquerda, incluindo correntes do PT, de intelectuais que apoiaram a presidente durante a campanha e, no último fim de semana, da Carta Capital. A revista, tradicionalmente alinhada com o PT, publicou na manchete principal uma reportagem com o título "À beira da recessão". A chamada dizia: "O pacote fiscal do governo golpeia os mais frágeis em uma economia combalida, enquanto prossegue a crise global".
Durante a reunião ministerial, onde estarão os 39 ministros na Residência Oficial da Granja do Torto, Dilma irá ressaltar que tanto Levy quanto Nelson Barbosa, novo ministro do Desenvolvimento, contam com seu apoio na aplicação das novas medidas. No caso específico de Barbosa, a declaração explícita de apoio poderá ser interpretada como uma forma de Dilma reparar o dano à imagem do ministro, que precisou voltar atrás, a pedido da presidente, na declaração de que o governo pretendia mudar a política de reajuste do salário mínimo.
O "fogo amigo", no entanto, é intenso.
Em editorial, a revista Carta Capital, que previu recessão em sua capa, previu que Levy irá permanecer no cargo apenas até setembro. Leia abaixo: 
A linha levítica. Ou leviana?
Por Mino Carta
Diz o Oráculo de Delfos: “À vista do que se delineia, até setembro o empresariado vai pedir a Dilma que tire Joaquim Levy do Ministério da Fazenda”. Por que setembro? Tento entender: até lá a recessão seria inevitável ao sabor da política monetarista que caracteriza a atual gestão da economia brasileira. A se considerar que a opção do País nesta atribulada situação é crescer e crescer, nada mais daninho do que a orientação levítica. Ou leviana?
O Oráculo, como se sabe, é originário da Grécia antiga, mas ao longo dos séculos deu para se encarnar em figuras distintas e devidamente influentes. Refiro-me, portanto, a alguém merecedor de respeito. Veremos o que veremos, embora o Oráculo não costume errar.
À indústria cabe protagonizar crescimento. O Conselheiro Acácio concorda. Seu êxito depende do mercado nacional e internacional, aquele que não se confunde com o Mercado, com M grande, já há décadas alçado à condição de Moloch global. Aquele é habitado por quem consome, este faz a felicidade de banqueiros e especuladores. Não há como enganar-se quanto ao fato de que Joaquim Levy está na Fazenda para agradar ao Mercado.
Falha gravíssima do primeiro mandato de Dilma Rousseff foi o descaso com que a indústria brasileira foi abandonada ao seu destino. Convém insistir no erro? Em um primeiro momento, não faltou quem se regozijasse quando a presidenta faz exatamente o que faria a turma da casa-grande caso ganhasse a eleição de outubro passado. Procuro interpretar o vaticínio oracular: com o tempo, e em meio ao recrudescer da crise, o empresariado irá render-se à voz da razão, a bem de todos. O almejado bem geral da Nação. Geral? Nem tanto, a turma do privilégio gostaria que tudo ficasse como está.
Em um país forçado à devoção do neoliberalismo, o investimento dará lugar ao rentismo no seu exercício mais desbragado. Outras as demandas recomendadas pelo momento difícil. Em primeiro lugar, esforço concentrado para renovar os objetivos do PAC em obras de infraestrutura, em um Brasil aflito por imperdoáveis crises, uma energética, outra hídrica, sem contar o desastre da administração tucana de São Paulo, a exibir o leito da Cantareira crestado como as secas das terras nordestinas de outros tempos.
Outro empenho decisivo diz respeito à recuperação do prestígio da Petrobras, quarta maior empresa petrolífera do mundo, hoje em risco insustentável vítima de escândalos que ferem a credibilidade do próprio Estado brasileiro. A ação exige, obviamente, determinação e firmeza, sem tergiversações, e muito menos leniência, na punição dos culpados e no reacerto das rotas.
O que preocupa é a mediocridade dos conselheiros da presidenta, enquanto a distância entre a própria e Lula repete neste momento as dimensões do primeiro mandato. Está certo, dirá o ex-presidente, sempre disposto a entender, desde a vitória de Dilma em 2010, a justa aspiração da criatura de afirmar independência em relação ao criador, dizer a que veio e deixar seu legado.
Lula também sublinhará jamais ter pressionado a favor da nomeação de qualquer ministro, embora seja do conhecimento até do mundo mineral não apreciar vários entre os mais chegados a Dilma. Resta ver o que acontecerá se os maus agouros vingarem. Ou seja, se a recessão chegar em um Brasil que não cresce. Qual haverá de ser, se assim for, a postura de Lula?
O Brasil carregou, por mais de um século, a tradição de votar em pessoas em lugar de partidos, aspecto de óbvia explicação em um país onde partidos, na acepção democrática, desde sempre não passaram de clubes recreativos fundados por senhores da casa-grande. Com o PT desenhou-se a possibilidade de uma mudança. Não foi mantida. No poder o PT portou-se como todos os demais, com a agravante de ter prometido para não cumprir.
Não está claro até que ponto Lula pode e quer empenhar-se para recolocar seu partido nos trilhos originais. Tampouco estão claras suas intenções na perspectiva de 2018. Nem lhe conviria, agora, uma definição. Certa é sua boa saúde, o que poderia contribuir para apresentar a candidatura na hora oportuna. Trágico para Dilma se ele surgisse como o salvador da pátria. Não menos trágico para a casa-grande. Para os moradores da mansão, e dos seus aspirantes, Lula é a ameaça de longe mais apavorante, com ou sem partido.
Leia ainda reportagem da Agência Brasil sobre a reunião agendada para esta terça:
Dilma Rousseff faz amanhã primeira reunião ministerial do segundo mandato
Luana Lourenço - A presidenta Dilma Rousseff fará amanhã (27) a primeira reunião ministerial do segundo mandato. Dilma reunirá os 39 ministros na Residência Oficial da Granja do Torto. Entre os assuntos, a crise hídrica que parte do país enfrenta e as recentes medidas econômicas anunciadas pelo governo.
Desde o início do novo mandato, Dilma recebe com frequência ministros no Palácio do Planalto, mas esta será a primeira vez que toda a equipe estará reunida para um encontro de trabalho.
A expectativa é que a presidenta faça declarações após a reunião. Desde a posse, no dia 1º deste mês, Dilma não apareceu em eventos públicos no Brasil. Na última quinta-feira (22), ela participou da posse do presidente da Bolívia, Evo Morales, em La Paz, mas não deu entrevistas.
Os recentes anúncios do governo foram feitos por ministros, como parte do ajuste fiscal e novas regras para benefícios previdenciários.
As manifestações de Dilma este ano foram por meio de notas distribuídas pela Secretaria de Imprensa da Presidência da República, como a mensagem de solidariedade após o atentando contra o semanário francês Charlie Hebdo e a tentativa de salvar da pena de morte o brasileiro Marco Archer Cardoso Moreira, preso na Indonésia, além de notas de pesar.
Nesta semana, Dilma viaja para a Costa Rica, onde, nos dias 28 e 29, em San José, participa da Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac).

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