domingo, 9 de novembro de 2014

O FATOR MEIRELLES

Não é de hoje que o ex-presidente Lula tenta colar o nome de Henrique Meirelles, que presidiu o Banco Central durante seus oito anos de governo, ao de sua sucessora Dilma Rousseff. Em 2010, ano em que Dilma disputou e venceu suas primeiras eleições presidenciais, Lula fez o que pôde para emplacar Meirelles como vice. Conseguiu fazer com que ele se filiasse ao PMDB, com a promessa de que trabalharia, nos bastidores, para que, na convenção do principal aliado do PT, ele fosse o escolhido. Assim, a chapa de 2010 seria Dilma-Meirelles. 
Com ela, Lula acreditava ter a fórmula ideal. De um lado, a "mãe do PAC", o Programa de Aceleração do Crescimento, capaz de tocar grandes obras de infraestrutura, como de fato ocorreu no setor elétrico, com as usinas do Rio Madeira e de Belo Monte, e na preparação para a Copa do Mundo. De outro, o principal responsável pela estabilidade econômica em seu governo. Com Meirelles no Banco Central, Lula colheu o mais longo período de crescimento da história recente do País: nada menos do que 24 trimestres consecutivos com o PIB em aceleração. E isso com inflação cadente e dentro da meta.
O plano, no entanto, começou a desmoronar ainda em 2010. Na convenção do PMDB, o então deputado Michel Temer mostrou comando sobre a base do partido e exigiu que ele próprio fosse indicado como vice. Depois da vitória, na montagem do governo, Meirelles foi preterido por Dilma na escalação de sua equipe. Dilma preferiu ficar com Guido Mantega, desafeto de Meirelles, na Fazenda, e alçou Alexandre Tombini ao comando do Banco Central. Com isso, ainda que tenha conseguido um grande trunfo em seu primeiro mandato, que foi a economia com pleno emprego, abriu um flanco de críticas à sua administração, depois que a inflação voltou a subir.
Em 2013, no entanto, o nome de Meirelles voltou a ganhar força, quando cresceram os rumores sobre o "Volta, Lula". Procurado por diversos empresários no Instituto Lula, o ex-presidente deixou vazar a informação de que Meirelles fazia falta na equipe econômica. Naquele momento, Lula estava convencido de que, com a volta do ex-presidente do Banco Central, Dilma teria uma reeleição mais tranquila, sem sofrer tantas críticas de analistas econômicos e da imprensa brasileira e internacional. A presidente, no entanto, mais uma vez resistiu.
Por que, agora, seria diferente?
Se Dilma não quis manter Meirelles em 2011, primeiro ano de seu governo, e repeliu a ideia de trazê-lo de volta em 2013, quando Lula voltou a insistir no tema, por que agora seria diferente? Cada vez mais, nos círculos econômicos, corre a informação de que a presidente reeleita estaria menos resistente ao nome do ex-presidente do Banco Central. E Lula também já deixou claro que a equipe econômica dos seus sonhos teria Meirelles na Fazenda e o economista Nelson Barbosa (outro nome cotado para o cargo) no Planejamento.
A chave para compreender uma eventual mudança de Dilma é seu discurso da vitória, logo após sua eleição, no segundo turno, da disputa presidencial. Mesmo sob a empolgação da reeleição, ela se disse disposta a mudar e a dialogar com todos os setores da sociedade brasileira – incluindo lideranças do setor empresarial e agentes do mercado financeiro. Nestas áreas, a aceitação do nome de Henrique Meirelles é praticamente unânime – maior, inclusive, do que seria a de Armínio Fraga, nomeado por antecipação "ministro" de Aécio Neves.
Enquanto a gestão de Armínio Fraga, no Banco Central, foi marcada por juros na lua (45% ao ano), instabilidade cambial e metas de inflação não cumpridas em três dos seus quatro anos, Meirelles plantou e colheu resultados diametralmente opostos. Foi com ele que o Brasil acumulou reservas de US$ 350 bilhões, alcançou o chamado grau de investimento medido pelas agências internacionais de risco e, também, reduziu as taxas de juros. Ou seja: Meirelles, em seus oito anos à frente do Banco Central, foi testado e aprovado.
A política da previsibilidade
O que fez a diferença para Henrique Meirelles, em relação a seus antecessores, no Banco Central, foi uma decisão tomada ainda antes da posse, em janeiro de 2003. Na primeira entrevista que concedeu, antes mesmo de assumir o comando da autoridade monetária, Meirelles afirmou que iria zerar a dívida cambial brasileira – eram papéis emitidos internamente, mas indexados pela moeda americana. Promessa feita, promessa cumprida.
Economistas ortodoxos que passaram pelo Banco Central, como Gustavo Franco, Persio Arida e Armínio Fraga sempre resistiram a eliminar este vírus inoculado nas contas públicas brasileiras. Meirelles, ao contrário, enxergava ali o grande ponto de fragilidade da economia nacional. Foi com Armínio Fraga, em 2002, que o mercado mostrou suas garras da forma mais intensa. Sempre que se aproximava o vencimento dos títulos indexados pelo câmbio, ocorria um movimento previsível: o dólar disparava e, assim, o Tesouro Nacional era onerado com pagamentos maiores. 
Um efeito colateral dessa volatilidade cambial era a dificuldade de se combater a inflação. Não por acaso, Armínio só cumpriu a meta em um dos quatro anos em que esteve à frente do Banco Central.
Meirelles, ao contrário, apostou todas as suas fichas na política da previsibilidade. Ele acredita que se os agentes enxergassem a essência da nova política econômica, cujo mix continha a zeragem dos títulos cambiais, o acúmulo de reservas internacionais, o compromisso com uma inflação baixa e cadente, os investimentos voltariam. E foi exatamente o que aconteceu. Mesmo com o fortalecimento do real em relação ao dólar, o Brasil saiu uma posição frágil no balanço de pagamentos para US$ 350 bilhões em reservas e alcançou o grau de investimento – o que reduziu custos de captação internacionais para o Tesouro Nacional e para as empresas brasileiras.
Dilma livre para tocar a política social
A gestão de Meirelles no Banco Central, vale dizer, foi favorecida por fatores internacionais. O ciclo de alta das commodities minerais e agrícolas fortaleceu as exportações brasileiras e contribuiu para a solidez do balanço de pagamentos. Hoje, o quadro é praticamente o oposto. Os preços do minério de ferro, por exemplo, são os mais baixos em quatro anos – o que explica o fato de o Brasil estar registrando déficit em sua balança comercial.
No entanto, caso demonstre coerência entre o discurso da vitória e a prática, Dilma poderá se libertar do fardo de ser, ao mesmo tempo, presidente da República e ministra da Fazenda. Com Guido Mantega, quem era vista, de fato, como ministra, era a própria Dilma. Com Meirelles, caso ele venha a ser confirmado, será diferente. Até porque a mudança só trará resultados se ele, efetivamente, vier a ser percebido e reconhecido pelos agentes econômicos como "o ministro". Nos bastidores do poder, de resto, ele já teria deixado claro que faria apenas uma única exigência para aceitar o convite que ainda não veio: autonomia para trabalhar.
O que pode, de início, parecer um demérito para Dilma, representaria, na prática, a libertação da presidente de um fardo. Livre da tarefa de conduzir o dia-a-dia da economia, e com um ministro imune a críticas do setor empresarial e financeiro, a presidente estaria solta, sem amarras, para construir um novo papel para si mesma, aprofundando políticas de inclusão social e de ampliação de direitos civis, como já fazem outros líderes latino-americanos. Basta citar os exemplos de José Pepe Mujica, no Uruguai, e Michele Bachelet, no Chile. Políticas de cotas, de combate à homofobia e de ataque à desigualdade estariam no topo da agenda presidencial, enquanto Meirelles se ocuparia de questões muito mais desgastantes como o ajuste fiscal, por exemplo, o corte de despesas, em parceria com Barbosa, segundo a fórmula de Lula, a variação cambial e tantas outras.
Nestes últimos quatro anos em que esteve fora de Brasília, morando em São Paulo sem qualquer função pública, Meirelles deu mostras de que mantém todo o seu interesse pela política – o que ele nunca negou, ao contrário – e seu engajamento na economia real. Assediado por grandes companhias do Brasil e do exterior, escolheu a dedo os convites recebidos para fazer parte de quase uma dezena de conselhos de administração. Nesta condição, aliada ao trânsito internacional que ele comprovou ter, antes mesmo da presidência do BC, no exercício do comando mundial do Bank Boston, em Nova York, Meirelles tem em si mais um diferencial: a capacidade de atrair investimentos internacionais para o País. A presença dele na cadeira de ministro da Fazenda significaria, de imediato, uma versão 2014 da abertura dos portos, sinalizando claramente para o mundo dos negócios o compromisso brasileiro em ampliar permanentemente um ambiente amistoso para a entrada e permanência do capital internacional. Estaria anulada, assim, uma das principais fontes de críticas à política econômica, tão explorada na campanha presidencial pelos adversários da presidente e na mídia.
Reforçando sua aposta no campo político liderado pelo PT, Meirelles, há que se lembrar, recusou disciplinadamente um chamado feito e reiterado pelo então candidato tucano à Presidência Aécio Neves no início deste ano. Uma e duas vezes, o senador mineiro formulou na íntegra seu convite para ter o ex-presidente do BC de Lula em sua chapa presidencial, na condição de vice. Filiado ao PSD de Gilberto Kassab, o ex-prefeito empenhado em ocupar o espaço do centro na política brasileira, Meirelles pode até ter se deixado seduzir pela valorosa oferta, mas foi convencido por Lula a não levar tanta água para o moinho tucano e esperar onde estava pela definição da disputa eleitoral. Um passo de Meirelles na direção de Aécio, nota-se hoje claramente, poderia ter definido a favor do PSDB a dura disputa com o PT. Sem Meirelles, o tucano jogou todas as suas fichas em Armínio Fraga, indicando-o antecipadamente como seu futuro ministro da Fazenda – e foi justamente neste ponto que o PT jogou sua propaganda mais pesada, desconstruindo não apenas Fraga, mas toda a proposta econômica defendida por Aécio. Discreto como sempre, Meirelles, ao não se mover, mudou o curso da eleição presidencial a favor de Dilma. Agora, ele está em condições de ajudar novamente a presidente, atraindo para si todas as atenções dos agentes econômicos e libertando a presidente para correr para o abraço popular. Para essa tentativa com boa chance de êxito, só o que ainda falta é o mais importante agora: o convite. 

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