domingo, 23 de fevereiro de 2014

Vivemos um dos piores momentos da Venezuela, diz historiador

Segundo Agustin Muñoz, não é possível que cidadãos vivam com medo. Divisão da sociedade chegou ao ápice com protestos dos últimos dias

Quase um ano depois da morte de Hugo Chávez e da vitória apertada de seu sucessor, Nicolás Maduro, a Venezuela não consegue acabar com a divisão de sua sociedade. A tensão política é permanente desde as eleições, mas chegou ao ápice nos últimos dias. Milhares de pessoas, sobretudo estudantes, estão indo às ruas quase diariamente.

Irritada principalmente com a insegurança e os problemas econômicos do país, a oposição foi para as ruas e viu nascer um líder, que agora está preso, acusado de incitar a violência. “Leopoldo López foi muito esperto ao se entregar. Essa foi a tática do Chávez. Quando participou da tentativa de golpe em 1992, Chávez foi preso e disse que a sua luta não havia tido sucesso no momento. Na época, ele deu entrevistas na prisão porque ele se transformou num mártir. López está seguindo os passos”, aponta a cientista política Vanessa Neumann.

Para Agustin Blanco Muñoz, a culpa pelo atual regime é da oposição. “Desde o chavismo, a oposição tem sido um desastre. Os primeiros responsáveis pela existência desse regime é a oposição. Não há uma oposição com uma unidade real. É apenas formal, na qual prevalece todo um mundo de interesses, de ambições, cada qual por seu lado buscando uma saída”, avalia o historiador.

Tensão econômica e política

Maduro culpa os Estados Unidos e o que chama de “burguesia parasitária” por todos os problemas da Venezuela. Não há produtos básicos no supermercados, como leite, farinha e açúcar. O dólar, que vale seis bolívares no câmbio oficial, está cotado a 80 no mercado negro. “A escassez se agravou nos últimos dois anos e nos últimos meses é algo muito difícil, produto fundamentalmente de uma economia cada vez mais quebrada. A nossa única produção é o petróleo. O resto todo é trazido de fora, sequer temos uma agricultura. Isso nos leva a uma situação social e política crítica”, destaca Muñoz.

Segundo Vanessa Neumann, o futuro no país é tenebroso. “Eles não disponibilizam todos os dólares leiloados. Isso é extremamente preocupante para um país exportador de petróleo. A inflação está em 56%. É insustentável e o governo não pode aumentar o preço da gasolina, que é o que precisam fazer. A Venezuela tem a gasolina mais barata do mundo. Foi o aumento do preço da gasolina que iniciou a revolução que levou os chavistas ao poder. Então, isso os tiraria do poder. A economia vai colapsar em dois anos. Talvez antes”, prevê a cientista política.

Crise atinge imprensa

A crise econômica afetou também a imprensa. Marianela Balbi é diretora do Instituto Imprensa e Sociedade, em Caracas, que há 15 anos divulga relatórios sobre a restrição à liberdade de imprensa no país, agressões a jornalistas e proibição do direito à informação. “Justo no momento em que estavam ocorrendo as manifestações, os meios seguiam com a sua programação regular sem dar aos cidadãos uma informação de interesse público necessária. Não havia nenhuma cobertura ao vivo, que é algo absolutamente normal e necessário", diz.

Ela conta que o único canal que estava transmitindo ao vivo era a rede colombiana NTN24 e, às 18h, a programação saiu do ar, da lista de canais a cabo. "Este foi outro gesto muito arbitrário, sem nenhum tipo de mediação, de advertência prévia. Foi algo que o próprio presidente Maduro decidiu e reconheceu logo”, ressalta Marianela.

Apesar da dificuldade atual, o Agustin Muñoz acredita em um futuro melhor. “Na história não há situações estancadas, há sempre saída. Podem ser lentas, mas existem. Não é possível que um país como a Venezuela viva hoje no meio da angústia, do desespero, o medo. Nós vivemos um dos piores momentos da história em relação à angústia e desespero”, afirma.

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